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Sensibilidade e o conceito de espaço vital
Você já percebeu que quando entra em algum lugar público, cinema, teatro, sala de aula, e já existem lá algumas pessoas desconhecidas acomodadas é raro que você escolha se sentar próximo ou quem sabe exatamente ao lado de alguém?
Comece a perceber…
É que temos em torno de nós o chamado espaço vital.
“Espaço vital é o espaço territorial de uma pessoa, que varia conforme a raça, o país e a educação de cada um.

O espaço territorial de uma pessoa é aquele que ela se reserva o direito de usufruir e, dentro de cujas fronteiras, qualquer ser humano é persona non grata. Eventualmente, abrem-se excessões para os amigos, parentes e entes queridos, desde que saibam seus limites e sejam comedidos nessa invasão concedida.” *
… veja que a excessão ocorre justamente para as pessoas que no termo corriqueiro chamamos mesmo de “chegadas”.
Brincadeira a parte, o fato é que temos em torno de nós um espaço dentro do qual sentimo-nos bem.
É um espaço que, na maioria das vezes, inconscientemente, entendemos como território, para ser compartilhado ou não, dependendo da situação.
Resolvi falar sobre isso, porque há pouco ocorreu comigo uma situação engraçada que me fez lembrar deste conceito.
Estava trabalhando, sentada ao computador, completamente imersa em meus pensamentos, quando me dei conta, com um susto e tanto, que um colega sentara ao meu lado.
Ele já estava ali há alguns instantes, não quis interromper, mas também não quis deixar de ser notado já que veio até ali para falar comigo.
Como somos bem próximos, não me incomodei, nem com a aproximação e nem com o susto.
Por outro lado, é bem provável, que se a situação ocorresse com alguém estranho a mim o desconforto seria bem grande.
Em muitos casos, uma aproximação como essa poderia gerar até uma certa rusga.
Isso porque consideramos uma proximidade física “não autorizada” como essa, mesmo que não escrita em código algum, falta de educação, invasão de limites ou de privacidade.
“Boa parte dos princípios de boas maneiras pode ser fundamentada na teoria do espaço vital.

Observe que muito do que se denomina etiqueta social é, nada mais, nada menos do que o estabelecimento formal de limites.” *
Pode parecer um certo exagero da minha parte, até porque cada um lida de uma forma com essa área de conforto.
Enquanto uns recuam ou sentem-se mal porque alguém desconhecido se senta à mesma mesa em um lugar público, outro, na mesma situação, até é capaz de puxar assunto.
Exagero ou não o caso é que existem limites, invisíveis mas existem.
A observação que faço hoje não é nem tanto a respeito de como trato do meu espaço vital, mas como me relaciono com o dos outros.
É uma questão de sensibilidade, e em um certo sentido de educação.
Muitos dos pequenos atritos diários podem ser minimizados ou completamente deixados de lado pela simples observação da área de conforto do outro e consequente respeito à ela.
Aprender a observar, respeitar e compreender a necessidade de espaço que as pessoas à sua volta têm pode fazer com que, em curto espaço de tempo, suas relações pessoais subam a um nível elevadíssimo de refinamento.
Tomando consciência dos limites das pessoas com quem convive, você poderá, ao agir de acordo com esta consciência, tornar-se mais amistoso, mais agradável e mais desejado de se conviver.
O melhor disso é que, tornando-se uma companhia mais agradável, certamente o que virá dessas pessoas, será a natural retribuição. De mais espaço, mais educação e compreensão para os seus próprios limites.
Vale a pena investir, mesmo que a contrapartida não ocorra.
No mínimo, nos tornaremos, pela simples observação do outro, mais refinados e sensíveis.
A partir daí, também, não será pelas nossas ações que os eventuais atritos serão iniciados.
Isso, por si só, já parece algo desejável.
Para aprimorar ainda mais este comportamento, vale lembrar que este espaço é mais sutil do que pode parecer.
As situações como uma música alta, ou um berro de chamado quando alguém encontra-se concentrado em algo parecem, a meu ver, tão invasivas quanto uma proximidade indesejada.
Ou um perfume, exagerado, que possa inclusive gerar mal estar ao outro, que não o escolheu.
Não bastasse isso, entravar o ir e vir alheio, opinando a respeito de suas companhias, de seu modo de vestir, de falar, de se movimentar, sem que esta sugestão seja formalmente pedida, não parece invasão também?
A mim parece…
Mostra-se mais trabalhoso agora, mas, se quisermos preservar e sutilizar nossas relações, já temos um bom guia para seguir: observar o que pode ser invasivo ao outro, por mais sutil que seja, e agir de forma a não instigar qualquer comportamento indesejado.
“Se você quiser preservar uma amizade ou um relacionamento afetivo, metabolize esta regra áurea: a única maneira de prender alguém é soltar; a melhor maneira de perder alguém é cercear sua liberdade ou invadir sua privacidade.” *
*Para aprofundar: esse conceito e as citações aparecem em um livro de boas maneiras: Método De Boas Maneiras é o seu título, DeRose o autor, publicado pela Nobel editora.
Julia Rodrigues

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